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27/02/2013

COMO MORDER TUAS MAÇÃS?















Como beber ilusões com a boca das memórias?
como caminhar com as sobras pelas ruas dos excessos?
como seguir sem flutuar, sem ressoar as chamas?
como cogitar alimentar as vidas do depois
se é no hoje que vive a minha fome, como insetos
cheirando as tangerinas e as framboesas?

Desapareço nos tecidos das buzinas e das coleiras
sombras agudas enrugam as esperanças
mas acontece que não sou de vinganças
meu peito compõe esculturas em terrenos baldios
vou morrendo nos rios dos sentimentos tardios.

Como desfilar tremeluzindo essa vida?
como atravessar as pontes escuras?
como morder tuas maçãs, criatura
se sou traço e círculo ventante
se sou esse ser tão minguante
tão errante?

Como foi que desaprendi?
como foi, se ainda escrevo esse poema
e se por baixo do vestido as pernas estão trêmulas
neste entardecer que não era de palavras?
como, se nada mais restava?

(Flávia Soufer)

03/12/2012



















O NADO DA DOR

Sou um conto de dores
com luz de abajur.
Sou uma cascata de choros
sobre um rio de gozos.

Dois remos cansados
em águas febris.
Infindo nado noturno
entre laços naufragados.

No intervalo das gotas
pelos cotovelos sangradas
emudeço...
escorro nua pelo silêncio.

(Poema: Flávia Soufer / Ilustração: Sérgio Dassie Genciauskas)

29/10/2012

DEUSA MÃE

Aquela das águas e das rosas
Aquela dos ventos e das brisas
Aquela das raízes e das terras férteis
Aquela dos fogos que aquecem e iluminam
Aquela dos segredos e dos medos
Aquela das tempestades intensas
Aquela dos suspiros infindos
Aquela das viagens insólitas
Aquela dos versos líricos
Aquela das magias das liras
Aquela dos tsunamis e dos redemoinhos
Aquela dos mistérios beijáveis
Aquela das festas das ervas
Aquela dos horizontes e das margens
Aquela dos perfumes interiores
Aquela dos vultos dançantes
Aquela dos sorrisos sagrados
Aquela que vem e que salva.

(Flávia Soufer)

14/05/2012

TRIO DAS SELVAS

Lá...
dentro dela,
fêmea das selvas.
Mulher bicho,
fera...

Corre pela mata,
foge dos piratas,
nada pelos rios,
traga arrepios.

Por lá...
as vozes dos gritos.
No abismo
teus três vultos.
Quase um insulto.
Quase uma guerra
nela...

Abocanha a floresta,
lambe estranhezas,
confessa belezas,
mistérios, pecados
desse bicho safado.

Nua...
dentro dela
ela pula
com curvas,
cabelos, cintura.

Nela
vivem três:
a índia,
a pantera,
a serpente.

Todas lá...
nas águas ferventes.
Ocultas...
pelas profundezas
elas dançam,
mergulham.

Quase se afogam,
quase se matam.

(Flávia Soufer)

10/04/2012

ADENTRO, CHUVA!





















Desafogar extremos
fluir doces deleites, fantasias
escoar venenos, vendavais
com taças de vinagre e pimenta
da vida bebida, engasgada na alma
derramar livres vertigens

em transe, apalpar sensações
desentranhar suspiros vitais
e gotejar, correr em fio
o que não mais cabe
desse peito berrante pulsante
deixar vazar, embriaguez

com rabiscos dançantes
meus intrínsecos líquidos
jorrados nas grafias
ora tsunamis, raios e trovões
ora luz, rios infindáveis de feitiços
todos, sempre, aguaceiros de mim.

(Flávia Soufer)

22/03/2012

OUTRO OUTONO

Outono é partida.
É calar-se, despir-se.
Outono é silêncio.
É romance, é poesia.

É estar no aconchego.
É o fechar das cortinas
para abrir, dentro de si,
suas próprias janelas.

Outono é a saudade
num copo de uísque.
É um pedaço que vai
para que outro venha.

Outono é meio amarelo,
meio marrom, meio laranja.
Cores caem, deslizam
pelo chão novos horizontes.

Outono é espera,
é ler as entrelinhas pelo ar.
Outono é busca e esperança,
é o mais profundo da alma.

Outono é canção úmida.
Escuro vento que seduz.
Outono é renascer
quando tudo parece morrer.

(Flávia Soufer)

13/02/2012

RIO DE VERTIGEM

À beira da morte,
nas rajadas das sombras
o meu temor entorpecido
desarma-se agora,
justamente quando ferido,
calado aos gritos.
Sem tempo, nem espaço,
em silêncio eu declaro
os escândalos que exalo.
Lapso do tempo
esquiva-se da vida
mas agoniza com brilho,
algo ainda viceja
- em mim, eu vi -
e assim escorre.
Sangra para renascer,
faz amanhecer a vida
para beber até engasgar.
Ora navegar, ora mergulhar...
Afogar-me nesse rio de vertigem,
em presentes segundos
embriagar-me com o elixir da ventura
e sorrir um descarado deboche
para os perigos de morrer
mais uma vez.

(Flávia Soufer)

16/01/2012

BORBOLETA NEGRA

Dança fatal
num vôo funesto.
És tu,
borboleta negra.

Que nos assobios do vento
traz os meus assombros e destroços.
Que na austeridade das tuas asas
estampa o meu número: trinta e três.

Entre oceanos e abismos, céus e trevas...
És tu no espelho, bem diante do meu rosto
afrontando o meu medo de expor nos olhos
o meu próprio medo resguardado.

Só não confundo-te com um corvo assassino
porque ainda voas como quem dança
e na ponta dos pés, posaste no meu âmago
diante de todas as minhas raízes imersas.

(Flávia Soufer)

15/12/2011

CRIME DE JASMIM

Um tiro de espasmos
entre sedas e perfumes
transes e delírios
entre um poema e outro
alvíssima pele nua, tua...

balsâmico delito, quente
delinquente flor de jasmim
em mim...

escorre uma abrasadora aguardente
na ponta da tua lança

faz criminosa
a tua insistente morada
em meus canais
em cada esquina da minha alma,
tua...

gota a gota, sangro pétalas
teus bêbados jasmins
aqui, assim, ainda em mim
exalando crimes entre meus pés
pés que já foram puro cheiro de dança.


(Flávia Soufer)
AGRIDOCE

Donzela margarida amarela
Florida na multidão paulista
Chapada menina da Lapa
Se sua saia é arrancada na lábia
Ela, uma cosmopolitan donzela
Vira fera em favos de guerra.

(Flávia Soufer)
RIOS DE ROSAS

Vivo pelo risco
arriscando os meus risos
em rios de rosas.

(Flávia Soufer)
NUAS RENDAS

nuances nas nuvens
ela nua como nunca
redemoinho de rendas
nele, ela rendeu-se.

(Flávia Soufer)

14/12/2011

ABAJUR

Com medo do escuro,
acendo meia luz.
Mas quanto desespero.
Têm morcegos em meu abajur.

(Flávia Soufer)
ELA PIRA

Ela quer respirar,
voar para qualquer lugar
nas asas dessa selva que
é ela.
Ela mergulhada nela
bebe e chora,
chora e bebe
até desaguar numa praia qualquer
para tragar essa fera
na sua alma de vodka.
Ela pira.

(Flávia Soufer)
POESIA É

entrar em contato
apalpar sensações
costurar vivências com emoções
desentranhar suspiros vitais.

(Flávia Soufer)